domingo, 4 de novembro de 2007

Rio de Cordéis


O CÉU DA LITERATURA, A CASA DO CORDEL


A literatura de cordel tem suas regras e agora já conta até com uma academia própria: sediada no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, a Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC) possui em seu acervo 200 mil folhetos de cordel e 13 mil títulos diferentes.
O cordelista Gonçalo Ferreira da Silva teve a original idéia de fundar a academia ao visitar a feira nordestina de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, em que os repentistas se apresentavam debaixo do sol quente, com as caixas de som abafando seus repentes. Preocupado com a situação, já que muitos repentistas dependiam da feira para sobreviver, Ferreira resolveu criar uma instituição para apoiá-los. Assim nasceu a ABLC, em 7 de setembro de 1988.
A escolha do Rio de Janeiro como sede da Academia se justifica pela grande colônia de nordestinos em todo o estado. A instituição apóia os autores de cordel editando seus textos ou incentivando-os a criar histórias de qualidade. Além disso, a Academia é um centro de convergência nacional, para onde são enviados folhetos de várias regiões do país, que são depois redistribuídos e, não raro, enviados para o exterior. “A ABLC tem muita ressonância no exterior”, acredita Ferreira. Segundo o presidente, a entidade tem o maior acervo de livretos de cordel do Ocidente.
Cordel – a literatura em versos populares
No começo, o autor de cordel era um homem simples, mas com ampla visão de mundo. Atualmente, o cordelista é um homem letrado, formado em universidades – como é o caso do próprio fundador da academia. “Por isso, é boa a qualidade do que se produz hoje. Há um interesse efervescente dos universitários pela literatura de cordel”, diz. Nascido em Ipu, no Ceará, Ferreira chegou ao Rio de Janeiro com 14 anos. Trouxe na veia a admiração pelo cordel. Com o tempo, amadureceu seu gosto e o domínio desse gênero de literatura. No começo, Ferreira trabalhava em casas de família e escrevia seus versos em papel de pão.
“Venci por mérito. Para chegar até aqui, passei poucas e boas. Meus patrões eram muito rigorosos, mas era a mentalidade da época. Nunca pensei em cobrar nada deles depois que melhorei de vida”, afirma Ferreira. Mais tarde, formou-se em Letras na PUC do Rio de Janeiro e foi trabalhar como jornalista na Rádio MEC, por onde se aposentou. Lá, conviveu com escritores como Carlos Drummond de Andrade e Raquel de Queiroz. “Eles ficaram admirados por eu ter enveredado pelo caminho do cordel.”, lembra.
Apesar da aparente simplicidade da literatura de cordel, não é fácil dominá-la. É preciso muito mais que técnica, como ressalta Ferreira: “Para ser um bom cordelista, a pessoa deve ter talento e buscar sempre a perfeição. O Patativa do Assaré, se não tivesse enveredado para o lado rústico, teria chegado à perfeição. Mas ele se tornou comercial e assim perdeu sua essência, a espontaneidade”, opina.
O nome literatura de cordel origina-se dos folhetos que eram pendurados com barbantes (cordão, cordas) nas feiras, praças, bancas de jornal e nos mercados das cidades do interior e nos subúrbios das grandes cidades. O cordel é a versão escrita dos versos populares. Esse gênero de literatura já era cultivado pelos antigos povos greco-romanos, fenícios e saxões. Por volta do século XVI, a literatura de cordel chegou à Península Ibérica (Portugal e Espanha). Na Espanha, recebeu o nome de pliegos sueltos e, em Portugal, de folhas soltas ou volantes. No Brasil, o cordel chegou com os colonizadores portugueses e instalou-se na capital da nação, Salvador, de onde se espalhou para os demais estados do Nordeste.
A literatura cordelista começou na trova com a parcela (versos de quatro sílabas) e alcançou a literatura clássica com os versos alexandrinos (versos de 12 sílabas). Segundo estudos da ABLC, a evolução da literatura de cordel no Brasil não ocorreu de maneira harmoniosa. Os primeiros repentistas não tinham qualquer compromisso com a métrica, muito menos com o número de versos para compor as estrofes.
No Brasil, o cordel tem enorme riqueza temática. As reflexões sobre problemas atuais e regionais, os romances, as sátiras, as cavalarias e as histórias sobre os cangaceiros fazem parte dessa grande variedade de temas. Alguns romances do cordel, por exemplo, eram baseados em clássicos da literatura, como Iracema, de José de Alencar.
A ABLC produz cerca de vinte títulos por mês. A instituição possui auditório, centro de pesquisa e biblioteca, muito procurados por estudantes. No Rio de Janeiro, os folhetos de cordel estão à venda na ABLC, na feira de São Cristóvão e no Museu do Folclore. A ABLC é filiada à Federação das Academias de Letras do Brasil, assim como à Academia Brasileira de Letras (ABL). Criada mais ou menos nos moldes das academias tradicionais, tem quarenta membros efetivos, sendo que 25% das cadeiras podem ser ocupadas por membros não radicados no Rio de Janeiro.
O grande objetivo de um cordelista é prender a atenção do leitor. É o que diz o presidente da ABLC: “Nós, cordelistas, somos muito impressionistas. Queremos escravizar o leitor ao texto. A gente quer que o leitor passe do ponto de ônibus de tão entretido que ele está com a leitura". Para ele, o cordel teve importância singular no Brasil: “A literatura de cordel ensinou o Nordeste a ler. Tem um grande valor cultural por isso”.
A métrica
De acordo com Gonçalo Ferreira, atualmente as métricas mais utilizadas no cordel são as seguintes:Sextilha (seis versos de 7 sílabas). Modalidade mais indicada para os longos poemas romanceados e a mais rica, obrigatória no início de qualquer combate poético, nas longas narrativas e nos folhetos de época. Essa modalidade é muito usada nas sátiras políticas e sociais;Setilha (seis, sete, oito e dez versos de sete sílabas). Excelente para ser cantada em reuniões festivas ou nas feiras;Décima (dez versos de sete sílabas). A mais utilizada pelos cordelistas e repentistas, essa modalidade só perde para a sextilha, especialmente escolhida para as narrativas de longo fôlego.



Rua Leopoldo Fróes, 37 – Santa Teresa – Rio de Janeiro.Tel: (21) 2232-4801E-mail: contato@ablc.com.br

5 comentários:

Marcela Antunes disse...

Salve o cordel...
nao sabia da academia nao, verei se um dia vou la
bjksss

Didática - Professor Márcio disse...

Me derrubou é penalti...tô na área, demorei mas cheguei...como dizem...chegando, eu tenho umas fotos de cordel da Feira de São Cristóvão..abçs

Celso Machado disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Celso Machado disse...

Também acho cordel o maior barato! Eu mesmo já me aventurei a escrever umas estrofesinhas no estilo ... Foi para um jogral natalino. (Mas não tenho a menor idéia se eram sextilhas, septilhas, redondilhas, quadradilhas, alexandrinos ou sei lá o quê mais!)
A Feira de S. Cristóvão (atual: Centro de Tradições Nordestinas ou, de maneira mais "apoliticamente incorreta" (mas nem por isso desrespeitosa): Feira dos Paus-de-arara) é show de bola. Um dos espaços mais democráticos da nossa cidade.

os cinco disse...

Legal a iniciativa!!

Gostaria de convidar o seu Blog para um debate aberto sobre os candidatos à Reitoria da Uerj no Blog didArtes.
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Bjs,
Pat.